Ressignificar

“Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos [...] Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam “Ela não sai da sua depressão...”. Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que era, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude da sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolve-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava [...] ”ALVES, RUBEM, 2008 PAG.11

Ressignificar é dar um novo sentido. Na psicologia, este é um termo muito utilizado.

Em sua raiz, o significado é “retirar afeto”, e seguindo esta linha de pensamento, para darmos um novo lugar a algo, um novo significado, realmente é preciso tirar o sentimento, o afeto que existe naquela experiência que está internalizada em nós, e só após essa retirada, esta “limpeza”, é que podemos olhar com outros olhos para vermos uma outras possibilidades, outros sentidos,  novos sentimentos.

Nossa realidade atual exige, nas diversas instâncias de nossa vida, que façamos o exercício de ressignificar. Ressignificar nossos sentimentos, nossas expectativas, nossas metas e objetivos. 

Passamos por diversas etapas neste momento de quarentena. Algumas delas como a negação, onde parecia ser algo que não chegaria até nós, até nossa família, familiares e amigos. O desespero, onde fomos sobrecarregados pelo medo, excesso de informações pessimistas, velocidade de contaminação. A acomodação, onde a situação parece fazer parte de nosso dia-a-dia. O desconhecido.

Conviver com a incerteza e com o desconhecido é um dos maiores desafios que temos que enfrentar e administrar dentro de nós. O desconhecido causa ansiedade e angústia, como se nos deixasse sem chão. No que se inspirar, em que experiência se basear, qual exemplo seguir.

Não há tantas respostas quanto gostaríamos, mas há uma certeza, a de que compartilhamos de uma mesma situação e dos mesmos sentimentos. Independentemente de profissão, religião, classe social, ideologia política... atravessamos uma fase onde a mudança acontece dentro de todos, em diferentes intensidades. Estamos nos reinventando, nos conhecendo e nos transformando, mesmo quando não queremos, mesmo quando não percebemos.

Então, porque não sermos mais conscientes neste processo e vivenciarmos positiva e verdadeiramente o que chegou até nós. Porque não reagirmos como as ostras. Colocando coisas boas nos grãos de areia que nos incomodam.

Está em nossas mãos, é nossa responsabilidade, sermos pessoas melhores do que já somos, convivermos e nos socializarmos com mais humanidade do que já fazemos, construirmos um mundo melhor que o que já temos.


A “normalidade” em nosso amanhã será feita por nós.


Janaina Copeiro Nobre
Psicóloga
CRP 06/67112

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